Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
Particularidades do discurso

Há determinadas particularidades nas pessoas que eu não posso deixar de reparar. Neste post, quero dar a conhecer duas delas, que me parecem do mais profundo interesse quando realizamos um diálogo com alguém.

 

Na conversa mantida com um idoso, há uma tendência natural para ele dizer a idade. Hão-de reparar. Ao contrário do que acontece com as mulheres, em que perguntar a idade é sinónimo de rudeza, perguntar a idade a um idoso é sinónimo de grande satisfação. Tanta é que, todos sem excepção, respondem sempre da maneira do exemplo que passo a referir

 

“Tenho 86 anos. Vou fazer 87”

 

A partir daqui, alguns idosos acrescentam a data de aniversário e a frase “Pois é, não é brincadeira nenhuma”. Confesso que acho esta particularidade um misto de ternura e pitoresco. Se, por um lado, acho comovente as pessoas orgulharam-se da sua idade e da experiência acumulada, por outro pergunto-me se esta característica é apenas típica do nosso país, fazendo parte da essência do nossa cultura. Isto porque dizer o ano seguinte parece uma espécie de sentido obrigatório. Tenho de fazer o teste no estrangeiro.

 

Outro aspecto muito curioso prende-se com a insistência ao pedido quando levamos uma tampa. Neste caso, o factor idade não interessa. É como se houvesse uma mola cerebral que nos levasse a fazer novamente a questão, utilizando agora a palavra “mesmo”. Atentemos no exemplo:

 

“Arranjas-me bilhetes para o concerto da Madonna?”

 

“É pá, não consigo. Está tudo esgotado”, responde o amigo que trabalha na organização.

 

“Mas não consegues mesmo arranjar?”

 

Por causa do meu trabalho, confesso que estou muitas vezes do lado do “amigo que trabalha na organização”. É impressionante como as pessoas são persistentes, sendo a segunda questão uma espécie de automatismo contra a má-fé, preguiça, ou qualquer obstáculo que impeça a conquista do bilhete, ou de outros pedidos.

 

Da minha parte, estou à espera de ter um bilhete que me vão pedir. Nessa altura, farei uma verdadeira revolução neste país, porque serei o primeiro de sempre a responder afirmativamente à segunda questão. E passo a antever:

 

“-Ó Gil, arranjas-me bilhetes para o concerto do Fatboy Slim?”

 

- “É pá não está tudo esgotado!”

 

-“Mas não consegues mesmo arranjar?”

 

- “Mesmo??? Claro que sim, quantos queres???”

 

È claro que no final a conclusão será apenas uma, que o maluco sou eu. Volta Scolari estás perdoado!



publicado por Gil Nunes às 12:58
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1 comentário:
De Joaninha a 25 de Novembro de 2008 às 23:11
Consigo perceber o que é termos de dizer "Eh pá, não arranjo. Já está tudo esgotadíssimo!" É estranho, mas não podemos ser sempre os salva vidas nas entradas para concertos. Também estou do lado da organização na maior parte das vezes e tem piada que não me largam até ao dia do concerto mesmo eu dizendo que já não dá. O português é teimosinho! Lol
Mas qduando dizemos sim, eiiiii, somos os maiores! Lol

Beijinho


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