Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008
Uma história verídica

 

São trechos de duas personagens verdadeiramente surreais. Por questões de ética, não vou colocar os nomes verdadeiros, mas o que vão ver a seguir passou-se comigo, durante dois dias que passei no interior do país. Cenas dignas de um filme de Hollywood, que ilustram bem o Portugal profundo e o quanto temos de caminhar em prol da mudança de mentalidades.
 
Chegado à terra, fico instalado num quarto por cima de uma loja. Sabendo nós, eu e o meu amigo, que a mesma casa é também habitada por uma mulher, decidimos ir à escola para que Genoveva me conheça. Cordialmente, trocamos algumas impressões de forma simpática, combinando um café para mais logo(quer ela quer o meu amigo são professores).
 
Com tudo a correr pela normalidade, regresso ao quarto, levando comigo jornais e revistas para passar o tempo. Tenho a oportunidade de conhecer, durante esse período, outro habitante da casa que, contudo, raramente lá pernoita devido à sua profissão o que não deixa de ser curioso, dado que o meu amigo nunca teve oportunidade disso. Juntos, vimos o telejornal, de forma amigável.
 
À noite chega o meu amigo, todo atarantado. Diz-me ele “O pá, a Genoveva fez um ultimato. Ou ficas tu ou ela”. Confrontado com esta situação, decidimos ir falar com o senhorio. Ele diz-me para eu estar tranquilo e para ficar, pois a casa é dele e ele aluga os quartos a quem quiser. No entretanto, a Genoveva já tinha feito 24 chamadas à mãe e avisado o senhorio que ia sair de casa, pois não tolerava a situação de pernoitar na mesma casa com um desconhecido.
 
Mais calmos, eu e o meu amigo fomos jantar num restaurante das imediações. Afinal de contas, que grande risada que foi. Já quase à meia-noite ele levou-me à casa, pois está a dormir num quarto duas ruas acima. À entrada dirijo-me à cozinha e vejo uma panela de água ao lume, com já a família fechada no quarto à espera da nossa saída. Como não estava para me chatear, muito embora já não estivesse a achar grande piada à situação, vou para o meu quarto, trancando-me por vias das dúvidas de levar uma naifada. Entretanto, procurando encontrar o interruptor no meio do escuro, parto um quadro.
 
À noite ouço gritos, discussões, conversas em alto tom. No meu corredor ouço com frequência passos e barulhos esquisitos. Confesso que a minha primeira reacção foi de medo mas depois foi accionado o meu instinto de sobrevivência. A situação já durava há cerca de duas horas e eu pensei para os meus botões “se isto continua assim abro a porta e começo a distribuir seja a quem for”. De repente ouço a porta de um quarto a fechar e uma fechadura a trancar-se com muita violência. E, por fim, eram 2:30 lá consigo adormecer.
 
Dormi que nem uma pedra pois a cama era muito confortável. Depois de comermos uma estupenda vitela assada, eu e o meu amigo regressamos ao local do crime pois eu, por questões profissionais, precisava de ver o e-mail com alguma urgência. Eis que, nesse percurso, surge Genoveva acompanhada da sua mãe, Eduarda. Explicam-nos que não houve problema nenhum, stress algum, que a mãe era muito galinha e chegada à filha.
 
Pois então, ao saber da minha presença, Genoveva ligou à mãe, que vive a cerca de 200 km. “Passaram-me coisas pela cabeça, sabe?”, disse-me. Alarmada, a senhora, já com alguma idade, pede a um vizinho para a transportar até à estação. Como eu podia ser extremamente poderoso, também o marido veio. Na estação, depois de algum reboliço com trocas de comboios, lá seguem a viagem com carácter de urgência até chegarem ao seu destino. De taxi, com muita rapidez, vão direitinhos ter à casa. Conclusão, a mãe tinha ficado a dormir agarrada à filha, com o pai de plantão no sofá, lá fosse eu pensar das minhas. Ainda agora me questiono como é que foi possível dormir naquele sofá, pobre homem!
 
Com o meu amigo novamente na escola, dei um pequeno passeio na vila para comprar mais material para ler, isto antes de ir para a casa a fim de ver o telejornal. Chegado a casa, a televisão dava, pelo que eu me levanto a fim de a arranjar. Eis que, do nada, me surge a Dona Eduarda.
 
Devo dizer que nesta altura o meu instinto jornalístico veio à tona. Ao ver a mulher a minha primeira reacção foi de espanto mas depois, mais friamente, pensei na forma mais hábil de lhe sacar algumas pérolas. Palavra puxa palavra e o que vão ver a seguir, apesar de engraçado, traduz uma grave situação de isolamento e de desequilíbrio social.
 
“Minha senhora, não acha que a sua filha devia sair mais, conhecer gente...”
 
“Sabe, é como eu costumo dizer, o melhor porco é aquele que está em casa”, responde-me, contando-me os detalhes de uma vida em que o proteccionismo é exacerbado ao máximo.
 
“Mas a sua filha não tem amigos?”
 
“Tem uma, fui eu que lhe arranjei. Mas nunca foi de férias. Vai domingo à tarde com ela tomar café”, explica-me.

Eu, já alarmado, tento ainda saber mais detalhes.
 
“Mas diga lá, a sua filha nunca foi ao estrangeiro?”
 
“Fomos uma vez a Lisboa, sabe” responde.
 
“Mas sabe que é normal os jovens irem a bares, a discotecas”
 
“Sabe que no outro dia um vizinho meu conheceu uma divorciada numa discoteca. E agora acho que se vão casar”, respondeu.
 
Nesta altura já tinha desistido de sacar mais pérolas, embora elas continuassem a surgir...
 
“Eu até compreendo que haja praí muitos malucos”, disse eu.
 
“Mas há muitos ou poucos?” questionou-me ela.
 
...e procurei meter algum juízo nessa cabeça. Disse que não podia proibir a filha de conhecer pessoas, nem de se aventurar nem de correr riscos porque senão ela passava ao lado da vida. Aos poucos ia concordando comigo, mas disse que não se conseguia separar da filha. Vê-la a trabalhar na Madeira seria um pesadelo.
 
“Uma vez o meu marido pensou nisso e a minha filha entrou logo no quarto e disse: e se dá alguma coisa à mãe, como faço para regressar de repente?”
 
Depois de uma hora de conversa, desci as escadas pois o meu amigo chegara e o jantar estava próximo. Ao darmos a volta na rua vemos a pobre senhora, debaixo de uma escuridão imensa e de um frio de rachar, parada no meio do passeio.

“Minha senhora, quer que a levemos a algum lado”, perguntamos.
 
“Nao, eu combinei aqui com a minha filha”.
 
“Mas a escola é ali(cerca de 50 metros)...”
 
“Mas eu combinei aqui. Ela ficou de me dar um toque para o telemóvel mal saísse...”
 
Foi irredutível. Desistindo, fomos jantar, conhecer os cafés mais movimentados da zona antes de nos recolhermos. Sem mais sobressaltos, regressamos de comboio no dia seguinte.
 
Com este post, mais do que dar a conhecer situações de vida privada, quero chamar a atenção para alguns desequílibrios que ocorrem na nossa sociedade, em que todos devemos pugnar para que os mesmos se resolvam. Porque a vida é muito curta para a desperdiçarmos, entendo que esta mensagem se deve estender a todos. È claro que as risadas são obrigatórias, mas no final, de forma fria, penso que a reflexão deve ser feita.
 


publicado por Gil Nunes às 14:48
link do post | comentar | favorito
|

4 comentários:
De Laura a 4 de Dezembro de 2008 às 15:05
Falta só um pormenor....a menina Genoveva, tem nada mais, nada menos, que 33 ANOSSSSSS. Que tapadinha!!! Para a semana vou para Armamar com umas seringas e um saco de coca. ehehehehhe É desta que a velha se vai passar.


De Anónimo a 4 de Dezembro de 2008 às 18:14
isto é a historia gay mais absusrda que ja li!!!


De Anónimo a 4 de Dezembro de 2008 às 20:04
Cabe-me salientar algumas questões que ficam por explicar na prosa do caríssimo autor:

1. Na verdade o autor pretendia ‘aviar’ a dita menina Genoveva.

2. Parece que a menina Genoveva apesar da ingenuidade não é assim tão estúpida.

3. O facto da menina Genoveva chamar a mãe e o pai é perfeitamente justificado. O autor tem realmente um perfil psicológico estranho o que acarreta precaução no mínimo.

4. Ao dar paleio com aquele teor à mãe da menina Genoveva, torna-se claro que o autor ainda não desistiu da ideia de ‘aviar’ a já referida menina.

5. Posto isto e tendo ficado na azia (mais uma vez), há que insultar o Zé-povinho e o Portugal profundo.

Meu caro se há quem precisa de mudar de mentalidades, você precisa de mudar de psicólogo…


De Joaninha a 7 de Dezembro de 2008 às 15:12
Está de facto uma história para rir á gargalhada. Não fazia ideia que ainda se podia ver este tipo de mentalidade. Ai Genoveva.... LOL Ela é que não sabe o que perde em não viver a vida. Certo?!
Bjinho


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

Novo Blog

Gil e a Igreja

Memórias dos 30 - O Pesad...

Auto-brincadeiras: todos ...

Memórias dos 30- Emanuel ...

Memórias dos 30 - O Marte...

Memórias dos 30 - Estrela...

O besouro(150 dias até ao...

Polonia -dia 1

A vodka é a principal cau...

arquivos

Abril 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Dezembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Junho 2004

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
subscrever feeds