Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
A evolução distorcida do bloco de notas - Movimento Anti - Moleskine

 

Já não se fazem blocos de notas como antigamente. Blocos rudes, com as folhas a enrolarem à medida que se vão gastando. Todavia, o envelhecimento de um bloco de notas é algo de muito subjectivo: um bom utilizador de um bloco de notas gasta-o rapidamente, matando-a à entrada adulta. È uma relação em tudo parecido com a que acontece entre o individuo e o frango de aviário. Há, digamos, uma espécie de ritual.
 
Infelizmente tenho constatado que o bloco de notas tem sofrido uma evolução distorcida. Por outras palavras, evolui no vazio, para lugar nenhum. A rudeza é substituída pela estética, sem que tal seja sinónimo de eficácia em prol dos desejos do homem. É com particular tristeza que noto uma regressão, e diria mesmo um apanascamento do simples acto de tirar umas notas.
 
No outro dia precisava mesmo de comprar um bloco de notas. Não encontrando quiosques ao meu redor, tive de me deslocar à Fnac para adquirir um. Depois de muito procurar lá encontrei os ditos “Moleskines”, que eu posso descrever como a fina-flor da tragédia do bloco cosmopolita. Não têm aquele formato apresentável, com uma folha azul – e – branca a dizer “bloco A4” ou algo do género. Não! Agora temos um conjunto de folhas com linhas muito estreitas – que nos obrigam a emagrecer a letra o que já de si é extremamente amaricado – envoltas num cartão tipo de papel de parede com as extraordinárias cores amarelo e verde fluorescente.
 
Práticos e funcionais? Pura ilusão. Usei-os no último domingo quando fui a Olival fazer a reportagem de um jogo de futebol. Se diminuir o tamanho da minha letra já é uma tarefa hercúlea, imagine-se o meu transtorno em ter que estar constantemente a abrir o bloco, pois a força da capa (no seu movimento gravítico) impedia que a página se estabelecesse. E assim, em cada jogada de perigo, lá tinha eu de esgravatar à procura da minha última anotação. Mais do que esta falta de funcionalidade, imagino os comentários dos que rodeavam:
 
“Olha, lá vai aquele jornalista do bloquinho amarelo. Já estou a ver, o melhor jogador é o que tem as pernas mais bonitas”
 
E com razão. Funcionalidade e falta de estética são as principais razões para a minha objecção aos Moleskines. E eu, naquela manhã em que tanto quis destacar as defesas de Osório do Abambres, o melhor que consegui foi fixar os voos daquele jovem guarda-redes na minha mente numa espécie de momento Kodak – para mais tarde recordar.
 
Cheguei a casa, fiz a crónica do jogo e aniquilei toda e qualquer tentativa de supremacia Moleskine. Moro num 8º andar e não hesitei em mandar aqueles dois ridículos blocos que me custaram 15 euros pela janela fora. Conservador eu sou, poeta transpareço mas por favor estagnem o movimento evolutivo do bloco de notas.
 
Sei que há muita gente que não pensa como eu. Que aprecia os novos valores estéticos, da encadernação fina e da canetinha acoplada, pronta a registar todo e qualquer pensamento. Eu não lhes chamo de pseudo – intelectuais. Para mim são o traço característico do destino a que a sociedade se confinou. Mais vale parecer do que ser. E viva a supremacia do papel de parede, e que esconda aquele todo aquele devaneio banal. E até parece que já estou a ler:
 
“Numa relação tem que haver cedências de parte a parte. Caso contrário entramos num processo de ruptura”
 
“ O aborto é uma decisão difícil e que tem de ser ponderada”
 
“ Estar vivo é o contrário de estar morto”
 
Penso que a nova face dos blocos de nota se coaduna com o estereotipo do “Marcelo Rebelo de Sousa”. Vamos lá mandar borda fora meia dúzia de frases inteligentes, de La Palisse,  e analisar a realidade como se fosse algo de pioneiro. Por fora pintamos tudo muito bem pintadinho e a coisa passa sem que ninguém se revolte. Força Portugal!
 
 


publicado por Gil Nunes às 12:07
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