Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
A poesia e os zeros das funções afins

 

Considero que a poesia é, de todos os géneros de produção de escrita, aquele que mais difícil é de construir. Entendo que obedece a parâmetros e regras bastante específicas, que têm de comportar no mesmo campo uma certa musicalidade, criatividade e articulação das palavras, num trabalho minucioso. Eu diria mesmo que fazer um bom livro de poesia é equivalente a construir uma catedral, ao contrário de um conto, que se pode construir como um fogacho, como um T1.

 

Naquilo que tenho visto, ultimamente, assiste-se a uma tendência para se tomar a poesia como algo de fácil. Alguns novos autores pensam que por fazerem meia dúzia de rimas se tornam artistas. Depois, ainda por cima, exploram pensamentos de tal forma batidos que mais não caem nas auto-estradas da monotonia. Toda a gente sabe que “o mar dá tranquilidade a quem o vê ao final da tarde”. Gostava eu que, em vez de tranquilidade, o mar visse uma girafa e a partir daí se conseguisse fazer uma relação bela e lógica.

 

Pior que os artistas, só mesmo aqueles que julgam que são artistas. Lembro-me uma vez, trabalhava eu no “Comércio de Gaia”, tive oportunidade de assistir a um lançamento de um livro de poesia. Comecei a desfolha-lo e, de tal forma fraco o achei, que me vim embora imediatamente. As rimas batidas e as ideias absolutamente banais constituíram para mim uma autêntica perda de tempo.

 

Ao pegar num livro de matemática, no meio do chinês que vou lendo, ainda assim sou capaz de identificar os zeros de uma função afim. Será que devo avançar para o doutoramento?

 

Ainda assim, há belos exemplos na língua portuguesa de poesia esplêndida. O “Porto Covo”, por exemplo, consegue apresentar musicalidade, criatividade, história, tranquilidade de tempo e de espaço, isto tudo em poucas palavras. Esqueçam a música do Rui Veloso, procurem a abstracção e desfrutem:

 

 

 

 

 

 

 

Roendo uma laranja na falésia
Olhando um mundo azul à minha frente
Ouvindo um rouxinol na redondeza,
no calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
de portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha,
plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem por amor se matou novo,
aqui no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
e reina sobre todo este luzeiro.
À volta toda a vida se compraz,
enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
acende-se no mar como um desejo.
Por trás de mim o bafo do estio
devolve-me à lembrança o Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem por amor se matou novo,
aqui no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
olhando à minha frente o azul escuro
podia ser um peixe na maré
nadando sem passado nem futuro

 



publicado por Gil Nunes às 10:25
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1 comentário:
De deliriodaloirinha a 17 de Abril de 2008 às 13:50
Adoro essa musica....


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