Quinta-feira, 17 de Março de 2005
Carta de Gabriel Garcia Marquez( que se encontra às portas da morte)
Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de
trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que
penso, mas pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo
que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais,
entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta
segundos de luz. Andaria quando os outros param, acordaria quando os
outros dormem. Ouviria quando os outros falam, e como desfrutaria de um
bom gelado de chocolate!
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples,
deixando a descoberto, não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus,se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e
esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de
Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus
espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas... Meu Deus, se eu
tivesse um pouco de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer às
pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria
apaixonado pelo amor. Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados
ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que
envelhecem quando deixam de se apaixonar! A uma criança, dar-lhe-ia
asas, mas teria que aprender a voar sozinha. Aos velhos,
ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo o mundo
quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade
está na forma de subir a encosta. Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o
tem agarrado para sempre. Aprendi que um homem só tem direito a olhar
outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se. São tantas
as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir
realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta,
infelizmente estarei a morrer...

GABRIEL GARCIA MARQUEZ


publicado por Gil Nunes às 12:28
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1 comentário:
De umbigoendiabrado a 17 de Março de 2005 às 13:07
Simplesmente lindo! Nem vale a pena dizer mais nada, estragaria tudo!


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