Sexta-feira, 11 de Março de 2005
Entrevista a Isabel Pinto- Do Programa Lince/Portugal
Para os interessados, como eu, na causa do Lince Ibérico, aqui fica o bruto da minha entrevista com Isabel Pinto.


1- Quais as principais causas do desaparecimento do lince ibérico?
Vários factores conduziram à situação actual do lince-ibérico em Portugal.
 A destruição de extensas áreas naturais com habitat favorável para a espécie, devido às campanhas do trigo e à plantação de florestas mono-específicas de pinheiros e principalmente de eucaliptos.
 Adicionalmente, a partir dos anos 60 surgem as epidemias de Mixomatose e Doença Hemorrágica Viral, que reduzem drasticamente as populações de coelho-bravo, principal fonte alimentar do lince-ibérico.
 A caça ilegal e o uso de métodos não-selectivos na captura de outros carnívoros contribuíram também para o declínio deste felino e paralelamente,
 o crescente isolamento e fragmentação das populações de lince-ibérico existentes devido à criação de barreiras como auto-estradas e barragens contribuíram de forma determinante para o desaparecimentos das populações desta espécie.
Estes factores afectaram de forma drástica as populações de lince e na década de 80 estimavam-se apenas cerca de 50 indivíduos em território Português, distribuídos por cinco populações: Serra da Malcata, S. Mamede, Vale do Guadiana, Vale do Sado e Serras algarvias-Odemira.

2- Acha que o lince é um símbolo de identidade nacional?
A espécie é acima de tudo um símbolo Ibérico pois só existe em Portugal e Espanha e ocorre num dos ecossistemas mais ricos da Península Ibérica - o bosque e matagal mediterrânico - áreas que representam importantes reservatórios de biodiversidade na Europa.
O lince-ibérico é sem dúvida uma espécie emblemática e bem conhecida da maioria das pessoas em Portugal, principalmente depois da campanha lançada pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN) no final dos anos 80 – Salvemos o Lince e a Serra da Malcata- onde foram recolhidas mais de 46 mil assinaturas. O símbolo desta campanha, o lince-ibérico, revelou-se uma espécie carismática e um símbolo nacional da Conservação da Natureza tendo provocado um movimento de simpatia em favor da sua protecção. Importa assim que a empatia que esta espécie nos transmite se possa traduzir num compromisso de apoio e colaboração às iniciativas que visem a sua sobrevivência.


3- Quais as medidas oficiais que estão a ser tomadas com o intuito de se preservar a espécie?
O Instituto da Conservação da Natureza, com a colaboração de alguns especialistas de universidades portuguesas, produziram o Plano de Acção para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal. Este plano define a estratégia e as medidas de conservação necessárias para a Conservação da espécie em Portugal. Lamentavelmente, desde 2003 que este plano aguarda a aprovação ministerial. Portugal participa também no Grupo de Reintrodução do Lince-ibérico que se encontra a trabalhar na criação de centros de reprodução de lince-ibérico, como o que já existe actualmente em Parque Natural de Donana (em Espanha) e que prevê que dentro de cinco anos possam animais para reintrodução no habitat natural.

A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e a Fauna & Flora International (FFI) (uma ONG britânica), estabeleceram uma parceria para a implementação do Programa Lince que conta também com a participação dos principais especialistas desta espécie em Portugal e pretende assegurar a execução e coordenação das actividades em torno da conservação do lince-ibérico.
A estratégia do Programa Lince pretende actuar de acordo com as prioridades definidas no Plano de Acção do ICN para a Conservação do lince-ibérico e no Plano de Acção para a conservação do lince-ibérico na Europa (UICN).
O Programa Lince pretende desenvolver as actividades necessárias para assegurar a existência e a gestão a longo prazo de um corredor de habitats prioritários adequado às necessidades de conservação do lince-ibérico. Este corredor permitirá assegurar a expansão transfronteiriça e a ligação de populações isoladas desta espécie.
O lince-ibérico depende da preservação de manchas de bosque e matagal Mediterrânico que constituem refúgio adequado para esta espécie e é principalmente neste tipo de áreas que o programa irá actuar.
O programa pretende concentrar as suas actividades nas zonas de ocorrência histórica da espécie, bem como nos corredores ecológicos que fazem a ligação entre áreas prioritárias, desde o Algarve até à zona transfronteiriça que contacta com a Serra Morena (Espanha) no Alentejo.
A estratégia adoptada pelo programa prevê o trabalho directo com proprietários e associações em planos de gestão que permitam gerir os seus terrenos de uma forma mais adequada ao lince-ibérico. A gestão será direccionada para a prevenção da alteração do habitat, conservação das áreas adequadas existentes e para aumentar o seu principal recurso alimentar (reforçando as populações de coelho-bravo). O Programa irá apoiar e aconselhar os proprietários de modo a assegurar um coberto vegetal adequado, o repovoamento de coelho-bravo (incluindo controlo de doença), e evitar que as populações de lince-ibérico sejam afectadas pela actividade cinegética.

A estratégia do Programa abrange as seguintes áreas:
 Identificação de áreas de habitat prioritário para o lince-ibérico
São realizados trabalhos de campo de modo a identificar áreas com coberto vegetal adequado para refúgio potencial do lince-ibérico. Os estudos realizados permitem determinar a qualidade dos habitats existentes bem como o seu grau de fragmentação. Simultaneamente, nessas áreas, é realizada a monitorização do coelho-bravo de modo a conhecer a actual distribuição das populações desta espécie nas áreas de estudo. Deste modo, será possível avaliar a qualidade do habitat e a disponibilidade potencial da espécie presa como critérios base para a avaliação e identificação das áreas de habitat prioritário.

 Desenvolvimento de planos de gestão com os proprietários que permitam a conservação e gestão adequada dos habitats
Pretende-se desenvolver protocolos com proprietários que permitam assegurar a conservação presente e futura das áreas de habitat favorável de acordo com o plano de gestão acordado. Estas medidas deverão prever, acções que permitam o reforço das populações de coelho-bravo bem como a promoção de áreas de alimentação (pastagens), melhoramento e conservação do coberto vegetal e controlo da actividade cinegética de forma a corrigir os factores limitantes à conservação do lince-ibérico.

 Identificação das melhores opções para o reforço das populações de coelho-bravo
Avaliação das melhores opções existentes para garantir o sucesso do repovoamento ou do reforço das populações de coelho-bravo na natureza e identificação da forma mais adequada à região em causa.

 Sensibilização
Para que as actividades que visam a conservação do lince-ibérico possam ser efectivas ao nível local, torna-se necessário um maior reconhecimento da situação da espécie junto das populações. O lince-ibérico é uma espécie emblemática e reconhecida em Portugal mas a falta de conhecimento e sensibilização para a ameaça da sua extinção tem enfraquecido os esforços mobilizados para a sua conservação. Este programa irá trabalhar no sentido de sensibilizar as comunidades locais nas áreas prioritárias para a espécie.


4- Quando foi a última vez que um lince foi visto? Considera existirem condições para se seguir o modelo espanhol, com a sua vivência em cativeiro?

Sabe-se que a presença do lince-ibérico foi confirmada pela última vez em 2001, no Alentejo, por uma equipa de biólogos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que desenvolvia trabalho na zona envolvente à barragem de Alqueva. Posteriormente existiram relatos de avistamentos mas que não chegaram a ser confirmados. Deve no entanto salientar-se que o lince-ibérico é uma espécie extremamente discreta e solitária e com hábitos predominantemente nocturnos pelo que a falta de resultados positivos não significa que estes animais tenham desaparecido por completo.
A reprodução em cativeiro para reintrodução no habitat natural é sem dúvida um dos passos necessários à sobrevivência da espécie tendo em conta o reduzido número de linces actualmente na natureza.
No entanto, esta não pode ser encarada como um fim em si mesma. É necessário que paralelamente à reprodução em cativeiro se actue sobre as ameaças que continuam a existir sobre as populações naturais, como a destruição de habitat, a escassez de espécies-presa e a existência de barreiras como estradas e barragens que isolam as populações. Resumindo, é necessário também preservar o seu habitat e criar condições para que lince-ibérico possa existir.

5- Existem vários tipo de lince?
De facto, existem várias espécies de lince no mundo, nomeadamente o lince do Canadá (Lynx canadensis), que se distribui pelo continente norte americano (Canadá e Estados Unidos da América), o lince vermelho (Lynx rufus), igualmente existente nesse continente (Canadá, Estados Unidos da América e México), o lince euroasiático ou boreal (Lynx lynx), que como o nome indica se distribui por grande parte da Europa e Ásia (excluindo a Península Ibérica), e, claro está, o lince-ibérico (Lynx pardinus) que existe unicamente na Península Ibérica e que é reconhecidamente uma espécie perfeitamente distinta do lince euroasiático.

Sabe-se actualmente que o antepassado do lince-ibérico evoluiu para se tornar uma espécie distinta há pelo menos um milhão de anos, embora esta espécie apenas tenha sido unanimemente considerada distinta do lince eurasiático (por parte da comunidade científica internacional) nos finais do século XX. Ainda assim, as diferenças morfológicas entre estas duas espécies são bastantes óbvias, sobretudo no que se refere ao porte, sendo que o lince eurasiático tem aproximadamente o dobro do tamanho do lince ibérico. Também as características ecológicas são distintas, tanto a nível dos habitats preferencialmente utilizados como do tipo de presas capturadas, sendo conhecida a dependência do lince-ibérico dos bosques e matagais mediterrânicos e do coelho. Dever-se-á ainda referir que o lince ibérico não é apenas uma espécie perfeitamente distinta das restantes espécies de linces existentes no mundo, como também é o mais ameaçado de extinção de todos os felídeos, sendo o único considerado criticamente Em Perigo a nível mundial.


publicado por Gil Nunes às 18:34
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